O QUE VEJO NA POSTERIDADE!
O QUE VEJO NA
POSTERIDADE!
Lendo o jornal
impresso, do meu dia a dia, uma reportagem falando de um senhor com 85 anos, que
vivia de conserto de objetos antigos, e por exigência e critério dele, somente
os de 1960 pra baixo. Diz ele que não adianta nem pedir pois não conserta
outros equipamentos ou máquinas mais novos.
Comecei a
divagar, como sempre faço nas minhas leituras, principalmente com assuntos
adversos e curiosos como esse. Fiquei a imaginar o que vai acontecer tão logo
ele morra, mesmo que referiram-se a ele como uma pessoa sadia, tanto fisica
quanto mentalmente. Os filhos, pelo que dá a entender a reportagem, não dão a
mínima; os netos, com certeza, muito menos vão querer dar continuidade a algo
que é ultrapassado, antigo, velho, e já deveria ser tratado como quinquilharia
e não objeto. Imaginei tudo o que ele preservou, consertou, se dedicou a
reconstruir, se dedicou a voltar a funcionar, com toda delicadeza, carinho, destreza
e aptidão por décadas a fio não passariam a ser nada mais do que uma sucata bem
sucateada, com mais de sessenta anos, mas ainda tem conserto. Qual seria o
futuro de tudo aquilo? De que serviu tanto trabalho, tanto sacrifício e
dedicação se tudo aquilo iria acabar? Como será daqui a sessenta anos, pensei
eu?
Continuei na
viagem, continuando a leitura do jornal e concomitantemente acessava o
facebook, lendo o que mais me interessava. E eis que aparece uma mensagem, de
uma publicação divulgando um concurso de contos muito dentro do que estava a
pensar sobre o futuro, cujo tema era RIO
GRANDE DO SUL 2125. Aquela postagem me chamou atenção pois tenho participado de
muitas coletâneas de contos e poesias e sempre arrisco escrever sobre o assunto
tema e em todos fui classificado.
O tema me
chamou atenção, pois falava exatamente de um futuro que eu estava pensando ao
ler o jornal. Imediatamente já decolei para uma vida muito além da que vivemos
aqui e agora, Me transportei para uma época muito distante, sem saber
exatamente qual, mas ao mesmo tempo pensava: tem que ser em 2125, praticamente
100 anos além do que vivemos. Como meus pensamentos flutuam muito rapidamente e
fluem no imediatismo, pensei na reportagem do senhor de 85 anos consertando
objetos com mais de 60 anos de existência, e ainda eram possíveis de serem
consertados e, inclusive, utilizados, não sendo apenas objetos relíquias para
ficarem paradas, expostas em uma prateleira, pegando pó, porém com uma bela
história a ser contada e lembrada.
Assim fui até
2125 e o que vi encheu meus olhos de tanto modernismo e exuberância em tudo,
além de, também, uma forte estranheza. Me deparei vendo pessoas com vestimentas
muito exóticas, não distinguindo homens de mulheres, mais parecendo farrapos do
que propriamente roupas de se andar na rua diante de pessoas que nem conhecemos
– então me pego pensando que tudo o que nunca me importei na minha vida foi
estar conforme as pessoas estão, e sim como eu gosto de estar, mas sem causar
ridículo e muito menos espanto – mas as roupas que usavam eram, digamos,
espantosas, rotas, esculhambadas e sem finesse alguma, e muito menos limpeza.
Ah, outro pensamento quando me veio à cabeça a limpeza: quem sabe lá em 2125 a
água esteja escassa, e seja um produto raro e caríssimo por isso os aspectos
das pessoas que eu via eram deprimentes e só em vê-los já sentia o cheiro
estranho de corpos suados e mal lavados.
Observava, no
pensamento, que os carros eram ultra modernos, sem rodas, mas um tipo de
eletromagnetismo, sei lá como se diz isso, mas algo que os conduzia que não
eram rodas, mas corriam em alta velocidade, meio que pairando no ar – não
voando, mas a uma certa distância da rua, parecendo os drones de hoje, porém
aperfeiçoados.
Os prédios de
hoje, todos rotos e desprezivelmente mal conservados contrastando com prédios imensos,
arranha-céus, arranhando literalmente o céu. Senti meu pescoço doer ao olhar
para cima e tentar vislumbrar o cume dos prédios monstruosamente altos e de uma
modernidade assustadoramente sem graça alguma. Eram apenas concretos e
concretos e concretos um sobre os outros para chegar até à altura. O que valia,
pelo que pude perceber, no futuro era o quão maior, mais alto, mais tudo era o
prédio, não importando beleza, estética. O que importava era ostentação – o que
hoje já temos, mas com beleza.
Outro
pensamento surgiu quando pensei na beleza: como seriam os concursos de beleza,
se hoje as mulheres já estão quase que totalmente transformadas, imagino como
será em 2125. Visualizei uma fábrica de pessoas, claro que, bonitas. Não eram
mais mulheres e homens normais, naturais, que eram solicitados, tanto por
homens quanto por mulheres, agora as fábricas recebiam encomendas de acordo com
o que o cliente precisava, tanto estéticamente quanto intelectualmente e
prestatividade. Hoje já temos o começo disso: os bebês reborn. Casais eram
formados conforme seu pedido para fábricas que estavam à disposição para
atender a necessidade das pessoas que queriam conviver com alguém, deixando de
lado a solidão que assolava a vida de todos.
Os concursos
de beleza com mulheres belísssimas, mas todas elas artificiais, todas
fabricadas por cada país para representar como simbolo da beleza moderna
conforme suas características, mesmo com muitas drásticas mudanças. As gaúchas
como sempre eram as mais belas, mais formosas, pois herdavam a genética de seus
antepassados que somos nós atualmente, pouca coisa, pois a genética foi se
modificando à medida que o tempo mudava os costumes que já iam longe a
diferença do que fora nos idos de 1970, ano em que comecei a me antenar para as
coisas do meu estado, com suas tradições fortes e marcantes. Os trajes típicos
eram representados por uma roupagem que ainda lembrava os chiripás, mas usados
como adornos de pernas, com tecidos muito leves, diferentes, longe do que o
costume de hoje, que alíás, está longe dos costumes de cem anos atrás, 1925.
Algo que me
chamou atenção que muitos usavam, tanto homens como mulheres, era uma moda não
apenas nos costumes dos Centro de Tradições Gaúchas que ainda se mantinham
vivos, eram as bombachas estilizadas, mais parecendo calças largas, sem aqueles
lindos detalhes, os favos, em suas laterais, com tecido hoje brim, na época que
estava vendo algo mole, sem viço algum, mas era mais confortável provavelmente,
o algodão foi abolido. Era tudo sintético, artificial.
Todos dançavam
agora com outros tipos de músicas que tocavam uma batida dificil de
identificar, com novos instrumentos criados por uma modernidade de músicos que
apenas souberam copiar modificando o que já era maravilhoso para ficar apenas
diferente, tudo isso em junção com aqueles sons de gaitas, estilosas e bem
diferentes, mas que ainda ecoavam vibrantes por todo o salão onde os acordes
eram dedilhados por músicos paramentados com as mesmas roupagens que usavam em
décadas, procurando manter a tradição, mas adaptadas à nova moda dos tecidos,
pois naturais já não era possível encontrar. Tudo que era natural foi se
acabando dando lugar às coisas fabricadas por máquinas.
No salão as
duplas dançando, formadas de forma muito natural, homem com homem e os demais
casais, na maior normalidade, fazendo rodopios pelo salão, não mais dançando
aquelas danças com bailado elegante, simplesmente rodavam pelo salão ao som de
uma música que não dizia mais nada, pelo menos pra mim, mas para eles com
certeza, dizia algo. Alguns vestiam indumentárias modernas, outros meros
viventes, aquelas roupas rotas que já havia percebido em outro momento do meu
vislumbre de um futuro muito além do que eu estou agora.
Voltei à realidade
ao escutar minhas galinhas cocoricando por terem colocado ovo. Pensei nas
minhas galinhas que crio para colher ovos e comê-los sentindo o paladar e a
qualidade diferenciadas por serem naturais, ovos de galinha de verdade
Vislumbrei em 2025 os ovos fabricados por uma indústria que estudou todos os
movimentos e composição de um ovo e extinguiram a criação de galinhas,
substituindo por maquinários, todos parecendo serem galinhas, com penas metálicas
estilizadas, simulando os mesmos costumes de uma galinha.
Fiquei triste
de ver que as coisas eram praticamente artificiais. As pessoas pareciam
autômatos, não tinham mais aquele ar de alegria, de felicidade. Não via pessoas
conversando nas ruas. Todas sérias com semblante sombrio, olhar caído como uma
estrela cadente percorrendo rapidamente um trajeto, apagando-se para sempre.
Novas palavras
foram criadas, novas expressões foram acrescentadas às existentes hoje, sendo
que algumas caíram em desuso, ficando apenas na história, de um tempo que se
diz hoje: Bah, tchê, antigamente... O idioma não era mais o mesmo, muito diferente
e sem elitismo ou perfeição alguma. As escolas foram abolidas e as pessoas
estudavam em casa.
As ruas eram
literalmente de cidades de pedra. As árvores, antes abundantes agora substituidas
por enormes, monstruosos condicionadores de ar emitimdo um ar refrigerado com a
função de dar mais satisfação às pessoas. Eram árvores mecânicas que substituiram
as verdadeiras que davam refrigério ao abrigo de suas sombras.
À medida que
meus olhos viam coisas muito diferentes do que vivemos hoje, percebia marcas,
indícios como recordação de uma época que ficou arraigada no pensamento de
todos. Veio à minha mente a música tradicionalista. Agucei meu ouvido e me
transportei para 2025. Ouvia ao longe, uma música fandangueira, sentindo
alegria por escutá-la pois não deixaram morrer o movimento mais belo que nosso
estado, o nosso amado Rio Grande do Sul sempre teve. Mesmo com algumas batidas
diferentes, conseguia detectar o tempo que tinhamos a tradição como o mais
forte de nosso estado. A cada década, sempre surgem novos pensadores, novos
idealizadores querendo fazer, querendo implantar, querendo mostrar que podemos
ser diferentes do que está; mas a tradição se manteve.
Via bandeiras
diferentes hasteadas em todos os prédios, tanto os públicos quanto os privados
e até mesmo nas casas, demonstrando um amor mais arraigado do que temos hoje,
mais patriota e mais intenso. Eramos um novo país. Nos separamos, não sei em
que momento aconteceu, mas estávamos separados do antigo e velho Brasil o qual
pertencemos agora. Não conseguia ver nem analisar as consequências dessa
separação. Minha curiosidade era grande, visto que agora, também é. Gostaria de
vislumbrar o que realmente aconteceu, mas nesse sentido nada consegui ver, nada
consegui ficar sabendo.
Procurei por
bancas de revistas para comprar um jornal, mas nada vi, nada encontrei. O que
via eram grandes murais eletrônicos mostrando imagens, entrevistas e
acontecimentos. Jornal não existia mais, revistas nunca mais. Livros? Ah, não
consegui encontrar nenhum e nem indício de extermínio. Um suspiro vindo do
fundo do meu coração me deu um naco de expectativa e esperança de que ainda
haja uma preservação do livro como ainda ser a melhor forma de leitura.
O tempo passou
e a realidade da vida atual me chamou. Não estava dormindo, mas em deleite nos
pensamentos sobre uma vida que vai ser daqui a cem anos. Uma breve sensação de
nostalgia permeada por uma tristeza tomou conta de mim, pois pensei: em 2025
não sei se alguém de hoje vai estar vivo, nem minha neta hoje com 4 anos, mas
espero que isso tudo que eu escrevi seja guardado, preservado e lido na
posteridade, não ficando apenas como meras palavras para nada interessar.
JOSÉ FERNANDO MENDES – 11/02/2026
– 19h50
Comentários
Postar um comentário