NUNCA O ESQUECEREI (reescrita)

 JAMAIS O ESQUECEREI

Estava trabalhando mas meus pensamentos não se acomodavam e muito menos conseguia me concentrar para analisar aqueles documentos que eram minha responsabilidade classificar cada um conforme seu uso para a empresa, pois na contabilidade, é assim que funciona, e eu trabalhava no setor contábil de uma empresa de construção civil, o que exigia muita concentração pois o compromisso era grande por ser um tipo de trabalho de extrema  responsabilidade, com consequências drásticas caso algum documento fosse classificado de forma errada e lançada nos livros Diário e Razão, modificando o resultado apurado no final do exercício contábil da empresa, se deu lucro ou  prejuízo.

Meu trabalho sempre foi feito com muita dedicação e sem problemas. Minha vida particular é que não estava indo bem. Sabia que nunca se deve deixar interferir e muito menos misturar os assuntos particulares com os do trabalho; e assim eu fazia, mas naquele momento, naqueles dias, eu estava muito disperso, e meu coração perdido com saudades do meu filho que não estava bem e tinha que ficar em creche, como se dizia na época, em 1982, com apenas 1 mês e 10 dias. Ficava preocupado e imaginando como estariam cuidando dele, visto que eram muitas crianças, dezenas, centenas, mas no berçário eram dezenas, e quando minha esposa o pegava depois do trabalho, por volta de 15h, eu dava uma corrida até lá para vê-lo, e sempre ele estava com os olhos inchados de tanto chorar, coisa que elas mesmo diziam. Elas relatavam que tentavam de tudo para ele parar de chorar mas ele não parava. Nada o fazxia parar de chorar. Chegava ter o choro rouco. Quando o pegávamos ele soluçava, olhava para nós com aqueles olhinhos inchados e nos indagando: “- Por que me deixam aqui, sozinho?” Isso doía e machucava, deixando marcas até hoje no meu coração, nos meus pensamentos e no meu inconsciente.

Mas era necessário, pois para nos mantermos, recém casado, tínhamos  que os dois trabalhar. Ela era telefonista, então o horário era de 6 horas, o que facilitava bastante, por o tempo de afastamento não era tanto, mas mesmo assim machucava, ardia no peito.

Sempre era eu que o deixava na creche, pois meu trabalho era próximo. Então descia com ele, com a sacola dele, mais minha bolsa com livros e o necessário para os estudos – fazia faculdade à noite. Algumas vezes eu dava uma fugida até lá na hora que sabia minha esposa iria pegá-lo. Levava-os até a parada de ônibus, e eu sempre com ele, curtindo ele, pois chegaria em casa tarde da noite e ele estaria dormindo – e precisava visto que tinhamos que acordá-lo antes das 6 da manhã para arrumá-lo e pegarmos o ônibus que me deixaria numa parada próxima 3 quadras do meu trabalho e 8 quadras da creche, e ainda tinha uma lombinha, não muito íngreme, mas era um aclive bem acentuado que forçava minhas pernas e ainda com o filho nos braços e as sacolas nos ombros.

Do edifício onde estava instalada a empresa que eu trabalhava, e ocupava todo  o quinto andar, eu podia sair da minha sala que ficava no lado oposto da localização da creche, mas então, eu dava uma escapada e ia até a sala dos engenheiros, que era do outro lado, e estava quasde sempre vazia, pois eles ficavam mais nas obras do que na sala, e de lá, da janela eu podia ver a cumeeira da casa onde estava a creche e ficava imaginando, quase sempre chorando, por mais que tentasse não chorar, mas as lágrimas vertiam, e por várias vezes me pegaram nessa cena, mas todos compreendiam e se compadeciam da minha dor.

Fugia, por minutos apenas, mas ia até à janela para ficar olhando a cumeeira da casa e imaginando como ele deveria estar. E numa dessas idas, com os sentimentos aflorados eu fiquei flutuando na imaginação:

Minhas mãos o prendiam firmemente, impossibilitando-o de seguir seu caminho ao qual almejava, pois já tinha cumprido sua missão.

Ele saltitava, revolvia-se loucamente, preso em meus dedos firmes que não o queriam soltar. Sua insistência louca fazia-me tentado a largá-lo para ver sua reação e deixá-lo seguir seu rumo; mas eu queria ainda vê-lo um pouco mais e conhecê-lo melhor, ler em seu rosto ruborizado tudo o que podia para ter plenos conhecimentos de si.

Assim fiquei alguns minutos, e ele sem parar, revolvendo-se em minhas mãos estáticas, endurecidas, que o vento de um inverno que se fazia rigoroso, cortava cruelmente pedindo e até mesmo clamando para que soltasse quem o mantinha aprisionado.

Olhei para ele e senti pena por sua ânsia de liberdade e então decidi soltá-lo, mesmo que nunca mais o teria nas mãos e nem mesmo na frente dos meus olhos -teria, logicamente outros tantos iguais a ele mas jamais o mesmo.

Lancei meu olhar para baixo, e o vento veio louco, e imediatamente afrouxei meus dedos, minhas mãos se abriram e a lufada de vento frio o levou, leve como é, para o alto e assim caindo aos poucos bailando, fazendo piruetas, malabarismos, revelando-se um verdadeiro acróbata; em outros momentos um perfeito dançarino que se deixa levar pelas notas da música que o vento sibila; e assim vai ele, subindo e descendo pela escada do vento, conforme o impulso que a lufada lhe dava.

E eu ainda o via, observando, admirado, cada detalhe, seus mínimos movimentos, e até com inveja por vê-lo alegre, solto passando por entre as pessoas, sempre rápido, indo intrometer-se nos carros que voavam apressadamente, mas nada o impedia de seguir seu caminho. Olhava para a cumeeira da creche e sentia-me preso, sentia-me amordaçado, impossibilitado de ir ao encontro do meu filho. Voltei a observar e a pensar no que estava aocntecendo.

Ele continuava a saltitar, loucamente até que eu o perdi de vista e o último movimento dele que eu vi foi quando chocou-se na parede do hotel, permanecendo parado, estático, inerte, por alguns instantes, e imaginei que sua caminhada foi curta e dali não sairia nunca mais, até que alguém o juntasse e o levasse para o lixo, mas o vento veio novamente forte e o impeliu a voar alegremente desaparecendo de minha vista, sem nem me dar adeus, para nunca mais tornar a vê-lo. Uma tristeza tomou conta de mim, mas, assim é a vida...

Voltei à realidade e vi que ele não passava de um simples PAPEL DE BALA ‘SETE BELO’ SABOR FRAMBOESA, que eu havia comido com muito gosto enquanto observava a cumeeira da creche onde meu filho estava, e o havia atirado da janela do 5º andar do edifício onde trabalho, e me deu inspiração para escrever e desabafar da tristeza que estava sentindo. Quando escrevo desabafo. Jamais o esqueceria, pois juntaram-se dois momentos significativos, ambos de tristeza e inspiradores. Nunca mais verei aquele papel de bala, mas meu filho logo o veria novamente, e sempre.

(reescrita em 23/02/2026)

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