A CASA COM VARANDÃO!

    A CASA COM VARANDÃO!

            A casa ficava no alto, não chegava a ser uma colina, mas era no alto, e podia-se enxergá-la de longe, quando se ia chegando na cidade. O centro da cidade era meio longinho de onde localizava-se a casa do meu avô, que encontrava-se acamado e nós íamos visitá-lo, mesmo contrariados, embora eu até gostasse de ir só para ter o prazer de avistar e visitar a casa que ele morava. Tínhamos que descer no centro e darmos uma boa caminhada, que me fazia cansar e reclamar para minha mãe – normalmente era sempre eu e meus irmãos, algumas vezes apenas eu acompanhava minha mãe naquela visita ao seu pai emprestado, que era, na verdade, seu padrinho, mas a considerava como filha e a criou desde cedo, pois seus pais morreram quando tinha apenas oito e doze anos. Na verdade a reclamação não era pelo cansaço mas sim pela demora de chegarmos até à casa e aproveitarmos tudo o que ela tinha para nos dar.

            Era uma casa toda branca com janelas envernizadas, com grande varandão, fazendo a volta em quase toda ela. A casa ficava lá em baixo, na rua onde tínhamos que descer para chegarmos até ela. Podia-se vê-la imensa, bem cuidada, toda de madeira, janelas altas, grandes, com venezianas e vidraças em tamanhos pequenos. Linda a meus olhos de um menino de nove anos que só via beleza em tudo e a imaginação flutuando com pensamentos ansiosos para as brincadeiras que logo teriam ao chegarem. Se juntariam aos primos e primas, eram seis. Porém, sabíamos que antes de imos para as brincadeiras tínhamos que cumprir um protocolo: chegar até o quarto do meu vovô e beijar aquela mão macilenta, assim como estava todo o corpo dele, pois já estava há anos sobre aquela cama. Seu rosto era ósseo, com uma barba imensa amarelada pelo excesso de fumo paiero durante a vida toda. E insistia em não tirá-la, por mais apelos que todos faziam para ele. Entre uma palavra em sussurros emitida, era uma tosse prolongada, amenizada por um gole de água que alguém prontamente lhe dava, erguendo-o suavemente, com todo cuidado e entornando o caneco de alumínio até que a água chegasse até seus lábios que mal se moviam para bebê-la. Eu sempre ficava observando esses momentos que jamais me saíram da memória.

 Ao entrar no quarto sabia que sentiria uma certa náusea devido ao cheiro de doença que pairava no ambiente, devido a janelas hermeticamente fechadas, como se isso fosse dar alguma melhoria para ele – e eu, mesmo na minha tenra idade, pensava: por que não o levam para o sol, por que não abrem as janelas para entrar um ar de vida, e retirar aquele cheiro horrível, abafado e  enjoativo devido a remédios e mais ainda pelo mijo que ficava no penico embaixo da cama. Falava isso para mãe quando estávamos em casa, mas ela dizia que era melhor não se meter, porque, afinal de contas, ela não estava alí diariamente para cuidar dele e não podia se meter no que estavam fazendo.

Lá fora tinha uma natureza exuberante para ele. Natureza essa que ele aproveitou, com muito trabalho e construiu tudo o que se via e onde brincavamos.Agora os tempos eram outros. O que víamos era um velho que mal conseguia falar, não tinha forças para se mexer, estático naquela cama com colchão feito de casca de espiga de milho. Ficava olhando e observando ele naquele estado e imaginando o quanto fizera e tudo o que fora. Quando olhava para seus olhos conseguia ver uma expressão ainda altiva e mandona. Algumas vezes seu olhar encontrava com o meu e o via sorrir levemente, esboçando um sorriso. Isso me deixava feliz e após esse pequeno ensaio de sorriso e agradecimento por parte dele, minha mãe me liberava, assim como a todos os irmãos para irmos aproveitar o dia. Ficávamos o dia todo lá nessa visita.

            Saíamos correndo para nos vermos livres daquele quarto horrendo, não correndo do meu vô, porque o considerava muito por tudo que minha mãe falava dele e que ele fez por ela. Finalmente chegávamos àquele varandão que agora era todo nosso. A esposa dele, que não considerava como vó, mas a respeitava por ser idosa, não tanto quanto ele. Pelo que eu sabia, ele ficou viúvo com muitos filhos para criar, sete, e tratou de casar novamente, e assim, arrumou uma jovem que outrora fora bonita, prestimosa, muito meiga e carinhosa para com todos e com muitos dotes, principalmente nas artes, mas na cozinha, não era nada boa. Seu arroz era um grude – isso que eu sempre gostei de arroz ‘molhadinho’, mas o dela era terrível, e ainda outras comidas que fazia não eram nada agradáveis, mas comíamos porque nossa mãe sempre nos avisava que não devíamos reclamar e muito menos dizer qualquer coisa que fosse sobre a qualidade do que ela servia de tanto bom gosto, com toda simpatia e bom grado. Mas ela sempre tinha balas e chocolates para nos compensar. Esperávamos ansiosos pelo momento.

            Na fuga daquele quarto e ansiosos para respirar um ar agradável, pois o cheiro ocre, abafado, nos incomodava e nos causava mal estar, nos deparáravamos com ela e éramos obrigados, um a um, a darmos um abraço e sentir suas imensas tetas separadas parecendo dois balões muito inflados, a nos aconchegar entre eles, pelo menos tentava, mas nós resistíamos, até que, ufa, nos desvencilhávamos e respondíamos vagamente ao que nos perguntava, e, eu, por ser o menor e mais queridinho, era o último e tinha sempre que aguentar mais aqueles afagos.

Quando chegávamos naquele varandão a vida se abria para nós. A folia era maior ao nos encontrarmos com a penca de primos, filhos do casal. Abraçávamo-nos falando coisas sem nexo, mas da mais pura alegria e expectativa do que viria a seguir. Eram risadas, gargalhadas e muita faceirice porque estávamos livres para brincarmos, aprontarmos e nos divertirmos pra valer. Comtemplávamos aquela bela paisagem. A natureza esplêndida e altiva diante de nós, nos esperando.

Descíamos a escada larga, de madeira, forte, antiga, que já durava muito tempo e resistia às intempéries e nem rangiam, apenas faziam o barulho dos nossos sapatos batendo neles enquanto descíamos os cinco largos degraus, que aguentava a todos nós sem nem mesmo soltar um gemido que fosse..

Corríamos pelo pátio todo de chão batido com alguns tufos de alguma gramínia que as galinhas ainda não haviam comido, pois elas andavam soltas ciscando, cocoricando e se divertindo. Nossa direção era o lago ou açude que ficava além do limite do pátio que estava cercado com moerões de madeiras de eucalipto e arames farpados, daqueles que, se não cuidar eles engancham e rasgam a roupa. Então, um segurava o arame levantando-o enquanto os outros passavam e por último alguém segurava para aquele conseguir passar. Novamente a correria, e, claro, muita gritaria, muita mesmo!

O açude estendia-se por uma grande extensão. Não entrávamos nele por medo de tantos avisos que nos davam por ser perigoso além de traiçoeiro. Víamos as vacas atoladas nele, quase que completamente cobertas por sua água escuríssima devido ao barro e extrume delas mesmas que ali faziam tudo o que queriam. Seus rabos rebolando-se no ar e chicoteando seus lombos para espantar os parasitas que alí se instalavam aproveitando-se delas. Brincávamos de atirar pedras de forma que elas pulassem várias vezes na água até afundarem. A folia era grande quando conseguiamos três, quatro, cinco pulos.

As vacas alheias a nós, pastavam e banhavam-se tranquilamente, mugindo a todo instante, algumas chamando seus bezerros para não irem longe – a mesma história se repetia com as vacas, com as galinhas, com os pássaros , assim como eram conosco-. Bezerros as seguiam e mamavam naqueles úberes imensos, com muito leite. Ficávamos a observar os bezerros mamando e comentávamos de como seria beber aquele leite direto da teta, mas não arriscávamos irmos até lá para tentar experimentar. Tomávamos o leite quando alguém tirava; era o leite que bebíamos quando estávamos na casa.

Atravessando o açude avistava-se, logo a alguns passos, um paredão formado por altos eucaliptos com troncos grossos, demonstrando que já eram velhos, mas eram lindos e o aroma que exalavam era de limpar os pulmões. Respirávamos forte para sentirmos aquele ar delicioso, puro, penetrar em nossas narinas e alojar-se nos nossos pulmões que abriam-se permitindo que então levantássemos a voz e gritássemos ao máximo para sentirmos nosso eco mais adiante. Ninguém se atrevia a tentar atravessar o çudão, como o chamávamos, para nos aventurarmos por aquele paredão de árvores. O farfalhar dos galhos e das folhas faziam um som meio que assustador, que deixáva-nos temerosos, mas continuávamos as brincadeiras sentindo aquela brisa delicada balançando nossos cabelos e refrescando nossos corpos que nem suados ficavam mesmo com toda correria.

Em alguma parte do çudão a água era limpa e quase transparente, podíamos ver os peixinhos, girinos e insetos que ali viviam. Aqueles serzinhos de vez em quando saltavam para fora com a intenção de aproveitar aquele ar puro, gostoso que exalava daqueles eucaliptos e de toda a natureza daquele lugar. Sabíamos que não poderíamos nem pensar em pescar aqueles peixes. Era pecado mortal. Daqueles de levar uma surra e ficar uma semana com os lanhos do chicote ardendo na pele. Absolutamente proíbido.

Tinha uma taipa estreita que foi feita para separar uma parte do çudão para as vacas e deixar outra parte mais limpa em condições de uso e diminuir até mesmo o perigo de quem pudesse se aventurar, descuidadosamente ou por peraltice, jogar-se naquelas águas. Uma boa parte desse espaço estava tomado de vegetação  próprias de pântanos que disfarçava haver água, estando aí o perigo para os desavisados ou teimosos. Não era o nosso caso. Até íamos à taipa, mas, por ser muito estreita, era arriscado nos desequilibrarmos e cairmos na água. Eramos crianças peraltas, mas não teimosas.

Na taipa podíamos ver melhor os peixinhos e dávamos pão, que pegávamos disfarçadamente. E eles adoravam ficavam por perto com suas boquinhas abrindo e fechando esperando por mais migalhas.

Quando chegávamos perto do çudão, as vacas corriam ao nosso encontro, não sei se por instinto de receber ração ou comida, ou porque nos reconheciam e queriam ficar perto de nós. Os terneirinhos eram lindos e as acompanhavam por onde elas andavam. Lindo de ver a maternidade nos animais. O amor existe em todo lugar que há mães, pais e filhos.

Visitávamos também os porcos, mas era do outro lado e mais afastados pois o cheiro que emanava deles não era nada agradável, mas era lindo de se ver aquela vara de vários tamanhos e cores. Subiamos na cerca e ficávamos observando eles fuçando aquela lama fétida em busca de algum alimento. Ficava a pensar: como pode ser tão gostosa a carne de porco se vivem na sujeira e comem restos de todo tipo de comida? E era muito gostoso mesmo. Nossos pais nos acostumaram a comermos todo tipo de comida. Quando os porcos nos viam, vinham correndo até o cercado, fazendo seus cuch, cuch de alegria, e guinchavam pedindo comida, esperando que dessemos bóia para eles. Algumas vezes, levávamos folhas de bananeira ou outras coisas, a tal lavagem como diziam, composta por todos os restos de comida e cascas de tudo que usavam,e  a esposa do vovô guardava para darmos a eles.

A quantidade e variedade de pássaros era impressionante. Bandos e mais bandos de pardais, pombas rolas, pombas comuns, canarinhos da terra com suas familias inteiras, sabiás com seus cantos maravilhosos melodiosos, os bem-te-vis gritando com pulmões abertos aquele canto que logo os identificava, assim como tantos outros pássaros voavam e nos recebiam mostrando-se ávidos e felizes como a natureza os fez. Voavam fazendo piruetas no ar exibindo-se para nós, entre uma árvore e outra. Seus cantos eram como uma bela sinfonia para meus ouvidos alojando-se no meu cérebro e me deixando completamente extasiado.

No pátio tinham muitas árvores, entre ornamentais, nativas e a maioria frutíferas: várias bergamoteiras, várias laranjeiras, muitas e muitas bananeiras,aliás, um paredão de bananeiras, sempre com cachos se desenvolvendo; um pé de araçá, um de pêssego, três pitangueiras, um imenso abacateiro com frutos grandes e vistosos, que eu nunca comi, pois não gostava, mas as outras crianças deliciavam-se em comer com açúcar e limão bergamota colhido no pé o mesmo fornecedor daquele delicioso suco do almoço. Tantas outras árvores, tais como cinamonos que ostentavam uma frondosa copa que nos proporcionava momentos de conforto diante o sol e o calor que fazia em algumas ocasiões.  Tinha um chorão tão extenso que, quando brincávamos de esconde esconde, era em baixo dele que nos escondíamos. Até para nos refrescarmos também.   

Quando íamos lá visitarmos o vovô, tirando o momento de termos que estar dentro da casa fétida, éramos felizes pois o contato com a natureza era agradável demais. Ficávamos horas e horas brincando, totalmente absortos com a correria de um lugar a outro para darmos conta de atendermos a tudo que tínhamos ao nosso alcance. Até que nos chamavam para entrarmos para almoçarmos.

- Crianças, venham almoçar!

Despediamo-nos momentaneamente dos animais e corríamos apostando corrida – claro que eu sempre perdia; menor e não muito desenvolvido que era fisicamente.

Na  corrida, passávamos por um galpão e deparávamo-nos com brinquedos que nem lembravamos mais que existiam, pois a natureza nos oferecia muito mais prazer do que aqueles fabricados e sem graça alguma.

Chamávam-nos novamente:

- Venham logo, a comida já está servida!

Lá íamos nós correndo, como sempre, subámos as escadas apressados e chegávamos à porta da cozinha e, tão logo adentrávamos já uma recomendação:

- Não esqueçam de lavar bem as mãos! Lavem com sabão e esfreguem bem as unhas! Era a esposa do vovô que dizia isso, com aquela voz suave, delicada e mansa que ela tinha, parecia estar cantando de tão melodiosa que era sua voz – fora cantora quando jovem, disse-me minha mãe quando lhe comentei em outra ocasião da voz dela - então obedecíamos sem nem pensarmos em revidarmos. Mas, mesmo que fosse nossa mãe, não revidaríanos, pois éramos acostumados a isso.

Corríamos para a mesa com aquela gritaria comum entre crianças, dizendo e pronunciando bobagens ininteligíveis e sem nexo; assim como nem nos importávamos com os resmungos e ao que elas diziam nos recomendando para alguma coisa.

Ficávamos quietos por alguns segundos e logo recomeçávamos com a algazarra sob os sorrisos satisfeitos da vovó (vou chamá-la assim para melhor referir-me a ela) que era pacienciosa e gostava de tudo aquilo.

Os pratos já estavam servidos. Olhávamos para a comida e nem pensávamos naquele arroz gosmento, grudento, unidos venceremos. A galinha, que escutamos quando a vovó tinha ido ao galinheiro e pego duas para matar e fazer de almoço. Elas gritavam cocoricó cocoricó desesperadas mas ela tinha prática no ataque e pegava sempre as mais gordas e que estavam em fase de recesso da postura, mas, infelizmente não sabia preparar, era sem cor, mesmo que com molho. Tinha nos pratos também legumes mal refogados. Nossa mãe era primorosa ao elaborar nossas comidas. Tudo era perfeito. Comida simples, escassa, mas sempre muito bem feita, muito saborosa com cheiro que invadia e tomava conta da nossa casa e a dos vizinhos. Mas a vó fazia questão de cozinhar e servir a todos nós, e minh mãe tinha que aceitar, afinal , ela era visita.

Naquele momento, nem importava se a comida estava assim ou assado,  só queríamos comer rápido para voltarmos logo para as brincadeiras. Fazíamos apostas de quem comia mais rápido e muitas outras brincadeiras.

Vigiando-nos, em pé, nos observando estavam as que pensavam que mandavam em nós, insistindo para comermos mais rápido e conversarmos menos. Sempre um ou outro comentário elas tinham para nos repreender. A conversa era sempre a mesma:

- Comam devagar crianças, mastiguem bem, assim não para nada no estômago! Sabíamos que eram recomendações par anosso bem, mas o que isso importava?

- Parem de conversar e comam mais rápido! A comida já vai esfriar!

- Não deixem cair comida dos pratos que vai sujar a toalha! - Uma toalha branca, aliás, alva que chegava a arder nos olhos. Com várias pinturas feitas a mão de belas frutas dentro de um cesto de vime, pintados pela vovó. As pinturas pareciam frutas verdadeiras de tão perfeita que ela fazia aquela arte. Ela fazia crochês e bordados. Ela tinha dom para as artes, menos a culinária. Então tínhamos que ter o máximo cuidado. Empurrávamos a comida que chegava próxima da beirada do prato, com a ponta do dedão, disfarçadamente, porque éramos repreendidos por isso também.

- Não tomem o suco antes de terminar a comida! Isso não fazíamos, pelo menos eu, porque enchia a barriga e demorava para ficarmos bem e voltarmos a brincar.

- Comam antes de tomar o suco!

- Vamos ver quem come tudo primeiro! E eu, sempre enjoado, não aguentava mais ter que comer aquela comida. Percebia o olhar de minha mãe sobre mim e sentia que ela sentia o que eu sentia. Mas...

- Não brinquem na mesa, crianças, com comida não se brinca, é sagrada!

- Vai ganhar doce quem comer tudo e limpar o prato, não deixar nem um grão de arroz! – Acontece que não tinha como deixar um grão de arroz, ou ficariam muitos grudados uns aos outros ou nada.

E assim era durante todo o tempo que ficávamos à mesa para almoçarmos. Muitas brincadeiras, mesmo que repreendidas; sempre aconteciam, muitas apostas e conversas sobre as brincadeiras da manhã. Junto com tudo isso, muitas contradições por parte delas que nos diziam contradições, muitas palavras que nos confundiam pois nos mandavam fazer algo e logo fazer outra ao contrário.

Eu ficava a pensar: como querem que sejamos completamente mudos quando nos mandam falar? Como querem que comamos quando nos mandam ficar de boca fechada?  – criança não entende que a boca fechada é para parar de falar, e só comer; Como querem que paremos de brincar à mesa quando fazem apostas para que comamos mais?

A rotina enquanto estávamos à mesa era sempre a mesma. Ficávamos chocados e sem sabermos o que fazer pois sempre tinham recomendações diferentes. Como iríamos entender? Criança é criança!

Por fim, após longos minutos de clausura e tortura sentados para comermos, mesmo com toda inquietude, chegávamos ao término do almoço. Mas só podíamos sair da mesa após autorização mediante vistoria dos pratos. Tão logo era dada autorização, as cadeiras eram arrastadas e os corpos eram vultos correndo voltando para o varandão. Tínhamos que ficar no varandão fazendo qualquer coisa que não fosse correr, abaixar a cabeça, ir ao sol porque ‘fazia mal’, o que anos mais tarde fui saber que era a tal digestão que estava acontecendo. Mas tínhamos que escutar as costumeiras recomendações que já sabíamos de cor e salteado:

- Crianças, não vão pro sol, que vocês comeram agora! E realmente o sol ardia ferozmente naquelas tardes de verão e no inverno o frio rachava nossos lábios tamanha a friaca.

- Gente, fiquem quietos porque comeram agora! E nós escutávamos e fazíamos caretas sem elas verem.

- Não abaixem a cabeça que volta toda a comida, e faz mal! Não arriscávamos abaixar a cabeça, vai que...

- Fulano, não faça isto, siclano não faça aquilo! Sempre tinha um fazendo alguma coisa que não devia.

E assim é sempre por toda vida de qualquer criança e os adultos que convivem com eles. As crianças não entendem porque devem aguentar e, muitas vezes, nem dão ouvidos ao que os adultos dizem, e continuam como se ninguém estivesse falando. Apropriamos e adaptamos nossos ouvidos a todo esse falatório costumeiro e cotidiano dos adultos que acham que sabem mais do que as crianças.

Enquanto eu pensava tudo isso, as brincadeiras individuais continuavam, cada um descobrindo e inventando algo para passar o tempo. Minha irmã mais velha ficava conversando sobre coisas de meninas moças, com a prima da idade dela. Ambas super vaidosas. Todos comportados, com uma rusga mínima aqui ou acolá, por um motivo ou outro, mas sempre resolvíamos da melhor maneira. Nada se alastrava por muito tempo. O que estragava era quando um adulto chegava para interferir e interceder sobre um ou outro, sem saber exatamente o que aconteceu e ia tomando partido de acordo com o que viu e ia agindo como adulto: sem noção alguma do que é ser criança, esquecendo-se absolutamente de que um dia foi criança também. Então a confusão realmente acontecia, e nem sempre acabava bem para aquele que era mais quieto e recatado, pois preferia se calar do que entregar ao outro mais esperto e passava a culpa para o outro, e o adulto que estava interferindo não se preocupava, normalmente, de verificar quem tinha a razão.

Acontece que entre as crianças, conseguem chegar a um acordo, demora às vezes, sai um chorando, gritando, correndo para a mãe – normalmente é a mãe o refúgio -, sabendo que ela vai defendê-lo, mas o normal é conseguirem superar todas as brigas e voltarem ao normal, brincando como crianças civilizadas e como se nada tivesse acontecido, pois não há maldade no que fazem. Já, quando um adulto se mete, daí a coisa muda de situação, pois adultos não esquecem.

Eu olhava para aquele paraíso todo que nos aguardava, mas pacientemente voltava aos meus pensamentos e à brincadeira que estava me entretendo. Os adultos pensam que sabem das coisas melhor que nós, crianças – continuava eu nas minhas divagações –, mas por eles serem maiores e mais velhos é que eles estão redondamente enganados, equivocados, pois nós visualizamos melhor as coisas e temos um jeitinho mais preparado de resolver qualquer problema, embora tenhamos pouca idade e, talvez, como dizem os adultos, falta de maturidade e experiência. O que me chateia e acho interessante, é que um dia eles também foram crianças e sentiram a mesma coisa que nós sentimos, portanto, nem parece que isto foi verdade, parecem tão insensíveis, ou não tiveram a mesma cabeça desenvolvida como nós crianças dos últimos tempos. Dei um sorriso no que pensei isso pois me veio a mesma ideia eu adulto e fazendo a mesma coisa que os adultos de hoje fazem. Será que serei assim também quando crescer? Agora, adulto, posso dizer com absoluta certeza, que nunca agi dessa maneira.

Escutamos os adultos falarem do tempo em que eram crianças e ficamos boquiabertos das bocabertices que eram. Não tinham atividade alguma, não tinham liberdade para fazerem nada, por isso nos prendem ao ponto de achar que a gente é a mesma coisa. Será que eles não entendem que nós, crianças, nos desenvolvemos mais rápido do que no tempo deles, e evoluímos mais do que suas próprias cabeças? Pois é essa evolução que atualmente está fazendo sair do controle dos pais o que devem fazer para seus filhos.

As horas iam passando e de vez em quando a vovó nos trazia algum doce, compota de pêssego que ela mesma tinha feito, muito deliciosas; mais adiante eram balas e assim iam nos engambelando para que não saíssemos correndo. Mas a ansiedade já tomava conta e já caminhávamos impacientemente com vontade de colocar os cabelos ao vento e irmos nos encharcar naquele açude mesmo sem jamais entrarmos nele.

De vez em quando algum perguntava se já dava para irem brincar. A resposta era sempre a mesma:

- Ainda não está na hora! Esperem mais um pouco!

Até um soninho nós tirávamos tamanha a falta de ânimo em ficarmos no marasmo de uma tarde queimante pelo sol. Mas na varanda corria uma aragem deliciosa que nos refrescava vinda daqueles belos eucaliptos que varria suavemente as águas do açude fazendo chegar até nós aquela agradabilíssima brisa que nos refrescava e até, às vezes, nos causava arrepios. Delicia total.

Meus devaneios continuavam enquanto não podia sair correndo: Muitas vezes ficávamos a pensar na realidade da inteligência dos adultos e frustrávamo-nos ao nos depararmos com a falta de capacidade de compreensão dos acontecimentos, além da falta de tato para resolverem casos, que conseguiríamos mesmo com pouca idade que tínhamos, resolver com maior simplicidade e em menos tempo. Os adultos se enrolam muito em suas adultices.

Minha mãe levantou-se e disse: - Crianças, estão liberados, podem brincar, mas...

Nem ouvimos mais nada, saíamos correndo, como sempre – porque será que criança não anda, ela corre? – e já estávamos, em poucas passadas no galpão para pegarmos algumas ferramentas que seriam úteis para a próxima brincadeira lá por perto do açude e de toda a bicharada.

Olhei para a varanda e lá estavam as duas a nos observar e a sorrir, felizes pois estávamos felizes. Minha mãe acenou quando me viu olhando em sua direção. Eu acenei brevemente porque as mãos já estavam ocupadas.

- Cuidado. Não vão se machucar!

Capinávamos, para dar pasto às vacas, plantávamos algumas flores que viámos espalhadas, dávamos comida aos porcos, alimentávamos as galinhas – eram muitas galinhas. Minha irmã sempre ia na cozinha buscar uma cesta para colhermos ovos. Eram muitos ovos, deliciosos ovos com gema bem vermelhas, clara firme, eram ovos de galinha de verdade.

Foram muitas atividades até que o sol começou a arrefecer e nos dar um alívio, mas também a tristeza, pois sabíamos que tínhamos que voltar para casa e deixarmos aquele paraíso incrível com tantas coisas a fazer. Não era trabalho, era lazer. Mas também com o que fazíamos, ajudávamos.

À medida que o sol ia se escondendo, os animais iam pouco a pouco se amontoando e dirigindo-se para suas baias; os porcos acomodando-se, relaxados, deitados no lodaçal; os pássaros piando procurando seus lugares nas maiores árvores, principalmente os cinamomos. Já estava na hora de todos se recolherem, pois o amanhecer para eles é madrugada para nós.

Algumas vezes nem nos chamavam para tomarmos o café preto ou com leite tirado das vacas pela manhã, com pão feito em casa emplastado na banha com açúcar. Vovó sabia fazer um pão bem gostoso. Levavam até nós para não nos tirarmos da lida.

Já estávamos demonstrando um certo cansaço, mas continuávamos ávidos nos afazeres brincadeirísticos. Até que percebemos nossa mãe se aproximando, sorridente, com ar de felicidade e convidando-nos para entrarmos para irmos pra nossa casa. Pegaríamos o ultimo ônibus.

Aceitávamos sem nenhum resmungo nem argumento, apenas juntávamos as ferramentas para colocarmos nos lugares e acompanhávamos os passos de mamãe.

Quando chegávamos na varanda, vovó nos mandava lavar as mãos e já nos trazia as xícaras de louça cheias de café com leite e uma farta fatia de pão caseiro. A minha era com chimia, pois não gostava, ficava ansiado só de ver meus irmãos e os outros comendo pão com banha e açúcar.

Depois de comermos com sofreguidão devido a fome intensa que nos acometia, fomos, a convite de mamãe, nos lavarmos para colocarmos camisa limpa que ela sempre levava, pois sabia que ficaria um caos. Realmente estavam.

Mamãe nos convocava para irmos até o quarto do vovô para nos despedirmos dele. Um por um ia até ele, e o beijávamos, forçadamente, a sua mão que havia estendido para nós. Saíamos cuspindo para tirar aquele gosto de doença que pairava sobre nossos lábios, mas disfarçadamente para não entristecer vovô e nem seus outros filhos que não podiam ver, pois poderiam falar pra ele.

Quando íamos saindo, a vovó me dava aquele abraço de urso, com suas tetas me engolindo, pois eu era o mais franzino de todos, passando a mão nos meus cabelos que estavam penteados, me despenteando, o que fazia logo era arrumá-los. Ela ia então até à mesa da sala, pegava uma sacola grande e pelo jeito pesada e a entregava para mamãe. Ali tinha, pão caseiro, geleia caseira, ovos e galinha que a vovó tinha depenado e limpado para dar para nós.

Nos despedíamos dos primos e íamos em direção ao portão. Ao sairmos, olhava para trás e lá estavam eles nos abanando, da varanda daquela linda casa que nunca mais esqueci de tão espetacular que era e por momentos tão maravilhosos que passei lá.

Caminhávamos até a parada, e, do alto da rua, voltava-me novamente – meus irmãos nem davam a mínima para isso, só queriam pegar o ônibus para voltar para casa -, pois eu queria sentir novamente cada momento por que passei lá naquele dia, assim como passei outros antes daquele, e tantos outros que passaria depois daquele; todos iguais em ações, mas diferentes em tocar o meu coração e ficarem eternizados na minha memória.

JOSÉ FERNANDO MENDES - texto escrito em 1976 e reescrito em 22/1/2026)

Comentários

  1. Uau, fantástico, pode ser um livro, estilo Maria Jose´Dupré, em "A Ilha Perdida". Parabéns, muito bem escrito, adorei.

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  2. obrigado pela leitura e comentário Elis. Fiz uma revisão. tem algumas alterações.

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