VASSOURA

 VASSOURA

Estou escrevendo agora, às 14h14, do dia 26/12/2025, o que me ocorreu escrever ontem enquanto varria a casa – não porque era Natal, e deveria ficar limpa para... também é, mas o motivo que me obrigou a varrer foi a quantidade de pelos do gato imenso peludo que estava no tapete vermelho (da próxima vez vou comprar um tapete cinza, que é a cor do pelo do gato) e por outros tapetes também, por onde ele anda e dorme descansadamente, nem se importando que está dando trabalho. Quando fui pegar a vassoura, a que diariamente uso estava molhada, havia deixando-a dependurada num local que pega chuva e sol, portanto, estava molhada e não pude usá-la. Todas estavam molhadas, então lembrei de uma outra, velhinha, já com as cerdas todas tortas, encolhidas, revoltadas, que havia deixado de lado – mas não a descartei, não coloquei fora por já estar velha, inútil, inoperante, não mostrando resultado. 

Fui em busca da tal vassoura, vasculhando todos os cantinhos, todas as possibilidades para conseguir encontrá-la. Até que, após um bom tempo de procura, a encontrei abandonada num cantinho, toda empoeirada pelo tempo que não estava mais em uso, mas lá estava sem jamais desistir e na esperança de um dia ainda poder ser útil naquilo que foi destinada a ser e fazer: varrer a sujeira, tirar a sujeira de qualquer lugar que quisessem usá-la. 

A poeira era tanta que nem a cor do cabo de madeira dava para ver. As cerdas, então, verdes que eram, além do desgaste do uso que foram desbotando, devido ao acúmulo de pó da rua e também de madeiras que foram cortadas na oficina, já estavam completamente sem cor, ou melhor, a cor predominante era de poeira e de serragem fininha. Peguei-a, me desculpando por tê-la deixado abandonada até ficar naquele estado, mas ao mesmo tempo dizendo-lhe, ‘pelo menos estás aqui, não te coloquei fora’. Levei-a até a pia e a lavei, somente o cabo, pois as cerdas não poderia molhar. Senti o alívio dela quando aquela porção de sujeira saiu de cima fazendo-a renovada, embora velha, embora desbotada pelo uso, mas ainda percebia-se um viço permissivo de uso. Para retirar o pó das cerdas, peguei outra escovinha de uso normal, e a escovei bem, para tirar aquele excesso de sujeira. Uma nuvem de fumaça surgiu mas as cerdas foram reaparecendo com sua cor original, principalmente as cerdas de dentro, mais perto do tronco onde estavam presas. As pontas, das cerdas, já estavam, todas rotas, arrebitadas, estraçalhadas, então analisei se haveria algum resultado em usá-la para tirar o pelos grudados no tapete, que nem o aspirador consegue tirar – fiquei observando-as e tocando nelas para sentir o estrago que o tempo e o uso fez, e assim me veio o pensamento: tudo na vida é assim, vai perdendo a utilidade, vai perdendo o viço e a força da juventude, a força da maturidade e tornando-se nada, sendo colocada de escanteio, esquecida, abandonada. Com tudo é assim. Continuei a pensar e meu pensamento flutuou, como sempre, para longe, para muitas situações e tudo me fazia sentir e perceber que, sem exceção, tudo passa por esse processo. Assim é nosso corpo, à medida que o tempo vai passando, o corpo, nossa carcaça vai ficando enrugado, envelhecido, ressecado, sem viço, mas por dentro ainda temos muita coisa boa que pode ser aproveitada, principalmente a experiência de uma vida. Até quando eu ainda serei útil? Depende só de mim? Parei de pensar, pelo menos tentei, e voltei ao meu foco.

Levantei-a, sacudindo-a para retirar o excesso de pó batendo na parede na tentativa de tirar o máximo possível. Levei-a para dentro de casa e comecei a esfregá-la no tapete. As cerdas trancavam, estava ficando difícil de fazer uma varredura adequada, prolongada. Tive que criar uma estratégia de uso – novamente o pensamento me veio à mente: as coisas velhas, as pessoas velhas, precisam ser manuseadas de forma diferente, não fazem mais a mesma coisa que fizeram outrora, mas para isso quem as está usando, convivendo, precisam ser adaptar e criar estratégias para que elas ainda possam ser úteis, e pensei EU ESTOU VELHO, mas ainda me sinto útil, embora com muitas limitações, assim como essa vassoura. 

Voltei a atenção para a varreção e forçando para tirar aqueles pelos que se grudavam raivosamente ou talvez, inconsoláveis de terem que sair dali, pois foi ali que o dono deles os havia deixado. Varri, varri, varri. E os pelos foram saindo porque a vassoura dando conta feliz da vida daquele trabalho foi cumprindo sua missão a qual foi destinada. Sentia a felicidade da vassoura no toque das minhas mãos que a forçavam ir e vir no tapete, e as cerdas sorridentes, mesmo arfando de cansaço, tiravam os pelos e algumas sujeirinhas que se encontravam. O grau de satisfação era imenso, pois elas começaram a juntar tudo, e quando perceberam que haviam feito um belo trabalho começaram a sorrir de felicidade. Agradeci a elas por aquela árdua tarefa, cumprida com galhardia, esforço e muito bem executada. 

Continuei varrendo e pensando na utilidade das coisas, no prazo de validade das pessoas, nas condições de vida e no como é importante valorizarmos tudo aquilo que nos serve ou serviu. 

Pensei no uso da vassoura. Tem um ditado que diz varrer para debaixo do tapete. Colocam a culpa na vassoura, pois quem varre é a vassoura, mas ela é comandada por quem a está utilizando, mas essa pessoa não é massacrada por isso, essa pessoa não recebe a culpa de colocar as sujeiras para debaixo do tapete, tentando esquecer, esconder, todas as suas sujeiras, todas as coisas ruins que fez e faz. Coitada da vassoura, pensei eu.

Pensei no uso da vassoura pelas bruxas. Porque temos essa ideia que as bruxas (mulheres más e feias de bem antigamente) usavam vassouras para se locomoverem? Não pesquisei sobre isso, mas imagino que seja porque quem fazia serviços de casa, limpeza eram as mulheres feias que tornavam-se feias exatamente por não terem como se cuidar, como se tratar, não podiam ter vaidade, e tornavam-se más por não conseguirem fazer o que gostavam e apenas servir servir e servir a quem muitas vezes nem prestava atenção nelas como pessoas. Será isso? Ou estou eu viajando novamente num mundo só meu?

Pensei na vassoura como era quando eu ainda pequeno tinha que ir até ao mato cortar algumas guanxumas ou outra erva que não lembro agora o nome, próprias para minha mãe fazer uma vassoura. Não tinha para vender, era feita assim. Pegavam um galho de árvore, o mais reto possível, que era aplainado a facão e depois lixado (não me lembro como era a lixa) e aqueles galhos das ervas eram juntados em volta daquele pedaço de pau e amarrados firmemente com arame. E assim estava feita a vassoura que servia, para alguns pais usarem como castigo para seus filhos – eu não, meus pais nunca brigavam e nunca recebi surra alguma, não precisava, sempre fui comportado e estudioso. Essa vassoura durava algum tempo, até ficar apenas no sabugo e não conseguir mais varrer nada. Mas minha mãe não a colocava fora, fazia uma nova para dentro de casa e deixava essa usada para varrer o pátio. Ali aprendi que devemos guardar aquilo que pensamos ser inútil, pois algum dia poderemos precisar.  

A varreção terminou. Recolhi o lixo que a vassoura velha juntou e guardei-a carinhosamente, agradecendo por ter sido tão útil. Quando a coloquei junto das outras, senti o olhar e suspiro de inveja das demais, e ela, toda toda se achando, mas na sua simplicidade e humildade aceitando o seu estado, lhes disse: eu só fui usada para poupar vocês. E lá ficou ela dependurada junto das demais. 

JOSÉ FERNANDO MENDES – 26/12/2025 – 15h13

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