SALVAÇÃO! - CONTO
SALVAÇÃO!
A vida seguia
tranquilamente para todas as pessoas daquela família feliz, ou melhor, para
quase todos, se não houvesse um que estava na mais completa amargura, amuado
num canto, apenas observando, na total depressão que já se possa ter visto na
vida.
Seu estado era
desesperador. Ao olhar para o rosto magro, descarnado, demonstrando que há
muito tempo vinha se ressentindo com alguma coisa, mas nada dele saía a esse
respeito. Apenas trancava-se num mutismo enlouquecedor para todos que se
preocupavam com ele – o que eram poucos, pois sua presença ali apenas
significava mais um a presenciar cenas maravilhosas de encantos e desencantos
que daquela gente saía aos borbotões, por estarem e serem todos felizes, menos
ele.
Sua brancura era
transparente, parecia um boneco de cera, sem a mínima expressão de alívio no
rosto parecendo mais um cadáver do que mesmo um ser humano a ver, pensar, rir,
chorar, viver, e mais ainda, para ele, seria morrer.
Era dia de festa para
todos. Aniversário da caçulinha da casa, faria naquele dia UM aninho e tudo era
motivo de festa e sorrisos, mas ele nada fazia e nem nada dizia se dignava a
apenas sorrir, ou melhor, apenas esboçar um sorriso, quando raramente lhe
dirigiam a palavra e seus pensamentos se perdiam na imensidão torpe da outra vida
que nada pertencia à que estava naquele corpo pertencendo fisicamente àquela
família aparentemente tão feliz e mesquinha.
A pessoa que menos
era ouvida e menos falada era a aniversariante que simplesmente
dormia tranquilamente longe daquelas brincadeiras hediondas que lhe preparavam,
mesmo sendo a personagem principal dos festejos, mas quem menos se importava
era ela, seguindo alheia a tudo que acontecia, dormindo seu soninho reparador.
Eram os adultos que se divertiam, com uma desculpa de comemorar o aniversário
do bebê que estava absolutamente alheia àquilo tudo. A criança sofre porque são
muitos abraços, muitas pessoas falando coisas ininteligíveis, dando-lhe abraço,
pegando-lhe no colo com sorrisos e palavras soltas com a intenção de agradar e
agradecer aos pais da aniversariante, por terem-na convidado para aquela
maravilhosa festa, com muita música - não de criança, porque ela nem sabia o
que era aquele som desvairado a tocar, alto e a ensurdece-la fazendo-a ficar
irritadiça e chorosa.
A festa acontecia,
solta, todos felizes, todos comemorando, muitos sem nem saber de quem e o que,
mas comemoravam, com bebidas e comidas fartas, para adultos e crianças, mais
adultos do que crianças, o que é errado, afinal, aniversário de crianças é para
ter somente crianças. Mas os pais não se contentam, tem que estar todas as
camadas de relacionamentos no aniversário de seus filhos, no caso da filha.
Tudo se desenrolando conforme o planejado, com decoração bem feita, com motivo infantil,
claro – isso pensaram e decidiram fazer, não qual a menina gostava, pois nem sabiam,
porque um ano, eles ainda não sabem o que querem, o que são o que ... mas o que
os pais gostavam.
Seus olhos perdiam-se
nos cantos do enorme salão onde podiam-se ver muitas samambaias e através dela
havia uma imensa janela que dava para olhar-se a rua por onde viv’alma passava
e, portanto, tudo era monotonia naquele ambiente onde as pessoas sorriam, mas
para ele, elas simplesmente choravam lágrimas transparentes, de sangue, frio e
branco disfarçados por aqueles sorrisos falsos de falsa felicidade.
Assim iam-se passando
as horas e a criança dormindo tranquilamente, até que ele resolveu ir ao seu
quarto para olhá-la. Ficou observando o quanto de pueril havia num espectro tão
pequeno e o quanto iria sofrer quando crescesse. Até agora não sabia de nada,
nem mesmo falar, que de um certo modo , seria até ótimo, pois asneiras não
sairiam de sua boca pequenina e rosada, além de seus olhos não crispariam ondas
de ódio por palavras que ouvisse e compreendesse.
Ela não merecia essa
vida que iria ter com aquelas pessoas que a circundavam. Ela não merecia
crescer sendo o que todos querem que ela seja. Ela não pode ser como eu fui,
como eu sou. Os adultos, principalmente os mais velhos, pensam que sabem tudo,
que a experiência de vida é o que importa. Mas que experiência de vida é essa?
Pra que serve a experiência de alguém, se a minha, assim como de qualquer outra
pessoa é absolutamente diferente. Ninguém tem uma vida igual a de outra. Cada ser
é individual, é uno, portanto não precisam se espelhar em qualquer pessoa que
seja. Não precisa seguir outra pessoa só porque ela se deu bem na vida. Aliás,
o que é se dar bem na vida? O que é ter sucesso? Sucesso é estar fazendo aquilo
que gosta, fazer bem feito e sentir-se realizado, não financeiramente, claro
que se houver um, ganho considerável financeiro é maravilhoso, mas, dinheiro
não compra felicidade. Compra amigos, compra bens materiais, compra momentos
felizes, mas não a felicidade plena. Dinheiro não compra paz, tranquilidade,
amor verdadeiro. Mas o que importa para as pessoas é a realização financeira. Assim
os pensamentos dele foram aumentando, uma aflição tomou conta de seu ser e num
ímpeto pensou: 'tenho que fazer algo para livrá-la dessa vida, ela não pode
continuar nessa vida que a está esperando, com essas pessoas ignobeis e sem
valor moral algum.”.
Esfregava a cabeça,
roçava as mãos nos cabelos, caminhava até à janela, olhava lá fora o povo se
divertindo, ou pelo menos fingindo divertirem-se. Foi até à cama onde a menina
dormia tranquilamente.
Pegou-a mesmo
dormindo, abraçou-a carinhosamente, acariciou seu rosto, deu-lhe um beijo terno
e amoroso, mas tudo isso representando uma despedida. Seus pensamentos
fervilhavam. Então ele colocou uma mão na cabeça e outra no corpo da menina,
ergueu-a, mas a coragem lhe faltou: “Não posso fazer isso com ela, impedí-la de
viver a sua própria vida. Quem sabe o destino dela será outro? Mas o meu não
será”. Levantou-a novamente bem alto em direção ao teto do quarto, titubeou por
alguns segundos, mas nada, pensamentoi algum dessa vezx fez com que eles
abortasse a missão, trouxe-a novamente diante de sí, beijou-a em despedida, e com toda sua força, a lançou aos ares. Via
seus cabelinhos esvoaçando, até chegar ao teto escutando o barulho como de um
soco, do corpo da menina de apenas um ano, batendo no teto de concreto e vindo
velozmente para baixo. Não conseguia olhar pra cima e ver o que estava
acontecendo. Enquanto o corpo subia ele colocou suas mãos sobre a cabeça e não
cohorava, apenas pedia perdão para ela. Sentiu que algo movimentava-se mas não
fez menção alguma de segura-la novamente, deixando-a cair brutalmente,
mas lentamente conforme seus pensamentos e seus olhos percebiam e concebiam, no
chão duro.
O baque daquele
pequeno corpo daquela criança de um ano, foi forte ao chegar no piso cerâmico.
Ninguém ouviu, mesmo tendo muitas pessoas por toda a casa, mas estavam se
divertindo, com música alta e muita conversa, pois estavam festejando,
comemorando e nada ouviram e nem imaginavam o que estava acontecendo no quarto
da aniversariante. Das têmporas da criança saiam veios de um líquido vermelho,
um sangue novo, sem maldade alguma, mas que nunca teria, pois não mais
existiria aquele corpo para sobreviver e ouvir asneiras e mais asneiras dos
lábios das pessoas idiotas que ali estavam e de um mundo que teria de enfrentar
à medida que fosse crescendo. Agachou-se para conferir se a menina estava
realmente sem vida. Sentimento algum de arrependimento surgiu em seus
pensamentos, apenas de alívio e salvação.
Como num passe de
mágica suas mãos crisparam-se indo em direção a seu próprio pescoço que devido
à falta de fôlego foi fazendo com que seu corpo fosse desmoronando, até cair
por completo ao lado da criança que jazia infantilmente, mas sem nenhum
arrependimento, ambos sem vida, pois assim ele queria que fosse. Ambos estariam
salvos daquela vida medíocre, daquela vida falsa que nada acrescentava a nada.
Passaram-se alguns
instantes até que vieram acordar a criança para cantar-lhe os parabéns e que
iniciasse a comemoração do seu aniversário que tanta expectativa estava dando a
todos os convidados que ali já haviam chegado. Então a dramaticidade tomou
conta de todos e assim sucederam-se gritos e choros, convulsivos e incrédulos
com o que viam.
Quem entrou no quarto
foi a mãe da menina, irmã do rapaz que a tinha salvo da vida. Ela ficou
estarrecida ao ver os dois caídos, mas o que mais lhe chamou atenção foi o
estado da menina. Deu um grito, mais precisamente um urro, chamando pelo nome
do marido. Ele chegou ofegante, e tão rápido como a vida de sua filha que
estava agora, sem vida, sob o piso de seu quarto, agachou-se, atirando-se para
perto da menina, tomando-a em seus braços, enquanto a mãe tentava encontrar
algum sinal de vida naquele corpo tão delicado e pequenino absolutamente
inanimado. O quarto foi enchendo com todos os convidados e os comentários eram
todos chorosos, todos incompreensíveis, fazendo conjecturas de como aquilo
havia acontecido. Uma tragédia. Assim o assunto foi se alastrando, e como em
todo e qualquer lugar, as histórias e suposições iam surgindo e se
concretizando como verdadeiras.
O que eles viam
e presenciavam era algo inexplicável: a criança aniversariante e seu tio ao
lado, inertes, sem respiração – assim constataram após feito teste de
respiração – ambos estavam mortos. Inexplicavelmente mortos. Inconformadamente
mortos. Mas, salvos.
(texto escrito em
27/10/1980)
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