CEM ANOS
Hoje, dia 06/10/2026, meu pai,
Dorvalino Mendes, ou Bolinha, como mais conhecido foi, estaria fazendo 100
anos.
100 anos era a idade que ele,
seguidamente em conversas, dizia, daquele modo convicto e ao mesmo tempo
displicente, iria morrer.
Mas tem um detalhe, ele era tão
positivo em tudo que dizia e fazia, que não dizia morrer com 100 anos, e sim
viveria até os 100 anos, e só depois dos 100 poderia ir embora.
Não estou escrevendo sobre isso
com pesar, com tristeza, com saudade, nem muito menos vontade de chorar. Estou
escrevendo apenas para ficar registrada uma data, um marco que seria muito
muito importante para ele e para todos nós da família e muitos amigos que
tinha.
Ele dizia que iria até os 100
porque tinha, realmente, uma saúde invejável, uma disposição impressionante e
sempre um sorriso, maroto, na verdade, em seus olhos que dias eram verdes
claros, outros acinzentados, outros cor de mel claro. O seu rosto todo sorria.
Não lembro da cara do meu pai bravo. Via sua fisionomia preocupada por ter que
sustentar quatro filhos, mas nunca com expressão de raiva, de braveza. Ele era
brando, fala branda e atitudes igualmente brandas para se expressar mesmo nos
assuntos mais difíceis e complicados que fossem.
Meu pai era um exemplo de
trabalhador. Trabalhava de ferreiro na Copelmi e no Clube Tiradentes, por mais
de 30 anos foi essa rotina de trabalho. Antes de virmos morar aqui em
Charqueadas, já em Arroio dos Ratos fazia essa mesma maratona, a qual continuou
aqui para poder sustentar uma família grande e com os filhos crescendo e tinha
que sustentar a todos com dignidade.
Essa dignidade que lembro dele
por exercer funções tão diversas: uma com sujeira, carvão, e força bruta, e
outra, em questão de 30 minutos a 1 hora de diferença, a função de atendente na
copa de um clube.
Lembro como se estivesse vendo a
cena dele chegando todo sujo de carvão, mas a primeira coisa que fazia era ir
até o tanque (que existia até há 4 anos) e lixar as unhas com um sabão rosa,
que não lembro o nome. Eu ficava ao lado dele vendo-o lavar insistentemente
suas mãos pretas, suas unhas impregnadas de carvão e graxa. Mas não desistia e
só saía dali quando ao olhá-las estavam completamente limpas, sem vestígio
algum de um trabalho imundo. Enquanto o observava ele ia conversando comigo e
as palavras que jamais esqueci foram: - Filho um homem pode trabalhar no que
for, mas deve manter suas mãos e unhas sempre limpas. Exatamente assim que
falou. Eu deveria ter uns 8 anos, creio eu. Jamais esqueci e sempre faço
questão de fazer isso também. Hoje vivemos uma época com produtos e mais
produtos para limpar as mãos e o corpo, mas naquela época tinha que ter muita
força de vontade, afinco e paciência para tanto.
Nunca apanhei do meu pai, assim
como meus irmãos também não. Acredito, hoje, como pai, que ele não sentia digno
ou capaz de surrar por algo que ele não havia presenciado, então deixava os
castigos por conta de minha mãe, que era muito severa com meus irmãos, mas
comigo não. Só teve uma ocasião que ele saiu correndo atrás de mim com uma pá
não, pois estava limpando o pátio, e eu botei fogo em algumas coisas em baixo
da laranjeira de umbigo completamente tomada de belos frutos, laranjas imensas,
deliciosas, suculentas. Ele viu aquilo, e foi logo apagar e me xingando, mas
não com palavras bravias, mas me repreendendo e explicando que não poderia ter
feito aquilo, mas saiu correndo atrás de mim, e eu, com medo que fosse apanhar,
sai correndo e ele atrás de mim com a pá na mão. Quando me alcançou, fez menção
de que iria me bater, mas nem chegou a encostar em mim, ao invés de me bater
com a pá, que era o que iria acontecer, por isso corri, ele me pegou pelo
braço, sem apertar, sem brutalidade alguma e caminhou comigo até a porta da
cozinha e disse para minha mãe a arte que eu tinha feito, e ambos riram. A
laranjeira não sofreu nada e comíamos diariamente deliciosas laranjas.
Tínhamos criação de dois porcos
por ano, um ele abatia no meio do ano e outro no natal. Ele era chamado por
toda cidade para abater, com facada certeira, sem fazer o porco nem mesmo
gritar de dor e sofrimento. Ele era ferreiro, então fez uma máquina para
prensar a banha e fazer o torresmo. Nem sei por onde anda, quem a levou, se é
que ainda existe. Creio que não, porque ninguém lembra. Criávamos galinha e
comíamos ovos de galinha de verdade, como digo, tínhamos horta e certa vez eu
fui até o canteiro com cenouras, e vi uma que estava meio descoberta, a puxei e
ele chegou me vendo com a cenoura pequenininha ainda e ralhou comigo, dizendo
para deixá-las crescer, então lhe disse que gostava de comer assim pequeninha
que tinham um sabor menos forte. Ele aceitou meu argumento e me disse para não
colher mais – claro que eu teimei e colhi algumas de vez em quando. Ele sabia
disso, mas nada dizia.
Lembro dele me contando que uma
das noites que chegou do clube, era madrugada e estava assistindo o replay do
jogo do Grêmio e Santos, eu perguntei o resultado e ele disse: zero a zero. E
eu perguntei pra quem? Ele disse que riu e me disse para o Santos, porque o
jogo era no campo do Grêmio. Isso tudo ele me falou no outro dia no café da
manhã, pois eu era sonâmbulo, acordava à noite com pesadelos e ele teve que
colocar tranca nas portas porque eu saía pra rua. Ele ria e contava que eu
sentei na cadeira , ele jantando, minha mãe deixava a comida no forno do fogão,
e ele a comia fria mesmo, e eu conversava com ele. Daí eu me levantava e
voltava pra cama, em outras ocasiões ele me levava para cama.
A saúde dele era poderosa, até
que aos 78 anos, em 15 de março, ele sentiu fortes dores no estômago e dali em
diante foram piorando, não conseguia mais comer praticamente nada – e ele
sempre foi muito comilão - até que foi
ao médico – mesmo resistente a médicos e remédios – e lá, Dr. Jaime logo mandou
fazer exames e identificou que estava com câncer no intestino. Ficou
hospitalizado alguns dias, voltou pra casa, até que mandaram-no para Porto
Alegre, Hospital Conceição. Era dia 30/06/2004. Fui até ao hospital antes de ir
dar aula – naqueles dias eu dava aula bem próximo dali – e foi o dia mais importante
e restaurador da minha vida, mas não feliz, pois ele estava muito mal. Ele iria
se operar após os exames terem dado problemas sérios. Fui à tarde, logo depois
do almoço vê-lo e voltaria para trabalhar, e prometi que iria depois das 22h
novamente.
Quando cheguei na emergência, à
tarde, ele estava sentado, eu o abracei e foi a primeira vez que ele me disse:
EU TE AMO FILHO. E conversamos muito sobre coisas que jamais havíamos
conversado sobre sentimentos e então fiquei sabendo que ele não sentia-se amado
pelos filhos, que os filhos só amavam a mãe. Eu fui muito sincero e
esclarecedor com ele, dizendo-lhe coisas, fazendo-o lembrar-se de quando fui
beijá-lo, depois de alguns dias fora de casa, pois já morava em Porto Alegre, e
ele se esquivou e eu o forcei e o beijei no rosto. Ele dava uma risadinha já
conhecida, disfarçada, e disse que homem não beija homem, mas eu o convenci
dizendo-lhe que era beijo de filho com o pai. A partir dali ele se rendeu.
Quando o lembrei disso, ele riu, com um olhar vazio de arrependimento por não
ter feito isso antes. E disse: Eu não fui criado assim.
Nos abraçamos e quando disse q
teria que voltar ao trabalho, tinha mais aula pra dar, ele me pediu uma gasosa.
Fui até o barzinho em frente ao hospital e lhe levei uma gasosa (refrigerante
de limão ou guaraná de antigamente).
Quando voltei, às 22h, ele já
tinha se operado. Mas me viu de longe e abriu um sorriso, mesmo tímido, pelas
condições que estava, ainda sob efeito da anestesia. Cheguei perto dele, ele
procurou minha mão e a apertou. Perguntei como estava e ele disse: - Filho, to
indo pra casa amanhã cedo. Eu olhei aqueles vários equipamentos ligados nele e
percebi que um estava desconectado. Fui até à enfermaria que ficava logo atrás
dele, e perguntei para as enfermeiras o por quê de tal equipamento estar
desligado. Elas me indicaram o médico sentado logo adiante. Cheguei nele, o
cumprimentei com um boa noite e logo me identifiquei e falei o que meu pai
havia dito. Então ele olhou para mim e disse: - Não, seu Dorvalino não vai sair
daqui nem para o quarto, o estado dele é muito delicado. Perguntei-lhe da
cirurgia e ele disse: - Abrimos, mas tivemos que fechar logo novamente, pois os
órgãos estavam todos desmanchados. Não podemos fazer nada. Senti um punhal no
peito e me contive para não chorar, não pelo médico, mas pelo meu pai que não
podia me perceber triste, desesperançado. Voltei a sua cama, ele procurou minha mão e me falou algo que nunca havia me
dito: - Como tu é inteligente meu filho, onde tu aprendeu sobre isso tudo? Ele
ouviu eu conversar com as enfermeiras e médicos. Eu só ri e fiquei aliviado.
Ele apertou minha mão mais ainda: - Fica tranquilo meu filho, amanhã eu vou pra
casa. Não lhe falei nada, para não deixá-lo contrariado, mas o médico havia me
dito que dificilmente ele voltaria pra casa tão cedo.
Fui embora, pois foi bem dificil
eu entrar naquele horário., Me pediram pra sair. O beijei na testa e na mão, e
o senti gelado. Mas seu rosto era lívido, estava bem como sempre o via, embora
inchado, e a barriga imensamente inchada.
Fui para minha casa, que era
perto. Dormi muito mal aquela noite. E pela manhã fui para a cantina da escola
que minha esposa, hoje ex, tinha, e eu a ajudava quando não tinha aula para
dar. Estávamos lá preparando os lanches quando ligaram, minha esposa atendeu e
ficou me olhando e eu nem me dei conta do que poderia ser. Ela me fez sentar e
me disse: - O vô morreu hoje às 8h da manhã.
Não chorei. Não senti nada.
Levantei, tirei o avental, coloquei o casaco, pois fazia frio, era inverno, dia
01/07/2004, e fui para a parada do ônibus (tinha carro mas não gostava de
dirigir, ainda mais naquelas condições). Cheguei no hospital minhas duas irmãs
já estavam lá e fizemos todos os tramites para liberarem o corpo.
Eu fui fazer o reconhecimento.
Era meu pai, com 78 anos, faltando 21 anos, 3 meses e 5 dias para fazer 100
anos. Ele voltou para casa antes do tempo.
Hoje seria muita festa, porque ele dizia que o dia mais
importante de nossas vidas era o dia em que nascemos. E eu segui essa premissa
dele. Comemoro sempre, assim como ele fazia.
JOSÉ FERNANDO MENDES, filho do
Seu Bolinha do Clube Tiradentes.
06/10/2026
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